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Artigos

Objetivo, internacionalização e fator de impacto da Revista*

Ao longo dos anos como editores da Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (RBHH) tenho enfrentado algumas questões. A primeira delas, uma observação, que por vezes transforma-se em questionamento é sobre o objetivo da revista.

Para responder esta questão é necessário o retorno as suas origens na década de 80 do século passado. Naquela ocasião, de dias difíceis e discricionários, o Brasil era outro e a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hematologia (SBHH), passava por um momento de reestruturação e de polêmica em relação á atividade da hemoterapia no país. Com atuação firme e decisiva, a doação de sangue remunerada foi banida do país. Desde 1973 a SBHH publicava um Boletim mensal que tinha o objetivo de divulgar as atividades da diretoria executiva e informar a todos o que ocorria na Hematologia/Hemoterapia em todo o país. Época de poucas informações, de dificuldade de acesso ás revistas científicas para a maioria, se dizia então que para alguns rincões do país esta era a única comunicação em hematologia/hemoterapia acessível.

A cidade de Buenos Aires, Argentina em 1984 realizava o Congresso Internacional de Hematologia e a diretoria da SBHH em um ato de ousadia de quatro ou cinco pessoas modificou o formato do seu Boletim informativo e lançou em seu lugar um protótipo de revista científica que circulou durante aquele evento. Naquele momento o objetivo primordial e de heresia dos idealizadores era o de avançar e marcar posição científica, crítica então que a SBHH recebia, além o de atrair jovens para o seio da sociedade. Hoje rememorando podemos considerar aquele ato como de vaidade para muitos, como um sinal de progresso da hematologia brasileira, o de ter uma revista própria, pois tal não existia no país e em nenhum outro local da América do Sul. A revista de hematologia de todas as outras entidades da área e da América latina era a Sangre de Barcelona. Editada em espanhol por quarenta anos deixou de circular no ano de 1999.

Após um início titubeante em sua atividade, a Revista da SBHH se tornou eficiente e dois anos após a sua primeira edição foi indexada no extinto Index Médico Latino Americano (IMLA), e logo após, incluída na base de revistas da Literatura Latino Americana de Ciências da Saúde e do Caribe (Lilacs). A partir de então não houve mais volta e as diretorias que se sucederam sempre tiveram como objetivo da revista ser a opção nacional de publicação da hematologia/hemoterapia que culminou com a mudança de título para o atual. Assim a revista paulatinamente se tornou a depositária de publicações de entrada para os autores do país, dos resultados de dissertações de mestrado e doutorado, de informações relevantes de temas brasileiros, e principalmente para contribuições que teriam difícil aceitação para publicação em revistas do exterior. Com este objetivo houve um incremento de contribuições de todos os estados do país que ao inicio era restrito aos estados do Rio de janeiro e São Paulo (1). Com a finalidade de exemplificar o exposto, temas como o do efeito danoso da fortificação do ferro alimentar (2,3), dengue (4-8), uso compassivo de terapia celular no país (9), artigos do projeto de diretrizes da AMB/ABHH (10-14) e muitos outros de interesse científico e nacional foram publicados com grande repercussão. Ratifico e devolvo a questão aos leitores: os temas citados anteriormente seriam publicados em alguma revista do exterior?  

A revista desde o inicio sempre teve o objetivo  de ser a revista da hematologia/hemoterapia brasileira. Hoje, este objetivo se mantém, e foi acrescido ao de aumentar a visibilidade da produção brasileira, com edição em língua inglesa e inserção nas bases de dados mais relevantes como Scopus e PubMed. Para tanto a revista progrediu, melhorou a sua edição, e cuidou em particular do uso da língua franca de comunicação que é o inglês em suas páginas. Esmerou-se no aspecto didático de orientação aos autores e os incitou a se aprimorarem nas contribuições para que aumentassem suas chances de sucesso para publicar na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (RBHH) e no futuro em todos os veículos científicos existentes. Hoje na RBHH as contribuições são avaliadas pelo seu “board” interno, com revisão do formato, inglês e de estatística para após ter o seu mérito avaliado por experts. Com estas medidas a taxa de rejeição aumentou, mas a política editorial e os objetivos primários foram mantidos (15). E pensar, que houve tentativas há 5 anos atrás de se fechar a revista, mantida em reconhecimento devido a  história e ao trabalho da maioria dos hematologistas do passado e do presente.

Outra questão refere-se á internacionalização da revista.

Além das medidas já citadas, como passagem da edição para a língua inglesa o conselho editorial foi modificado há alguns anos, com o convite a diversos estrangeiros para participarem de sua composição. Este um passo importante não configura que a RBHH esteja se internacionalizando visto que o seu conteúdo, até o momento, conta quase que exclusivamente com contribuições do Brasil, apesar dos esforços e convites para se obter contribuições de autores estrangeiras nos últimos três anos. Resumindo a RBHH é uma publicação editada em país não-anglófono o Brasil, representativa de entidades científicas brasileiras (ABHH, SBTMO, Aibe e SOBOPE), publica quase exclusivamente comunicações brasileiras ou em sua maioria, tem direção executiva e científica brasileira e por isto não é uma revista internacional (16). Chegará um dia a ser internacional?

Outra a questão recorrente refere-se ao fator de impacto (FI) da revista.

Definimos como impacto a medida de repercussão que um conhecimento ou artigo divulgado por um determinado periódico científico, influencia e faz a diferença na sua comunidade de abrangência científica. Isto pode ser medido por meio da leitura, uso e aplicação do conhecimento veiculado, ser representado principalmente por citações, que simbolizam o nível de interesse de outros pesquisadores pelos artigos publicados na revista e o reconhecimento pela sua qualidade (17). Com o objetivo de ranquear os periódicos científicos de diversas áreas do conhecimento foi criado por Garfield um índice bibliométrico para esta mensuração relacionando o número de citações obtidas no universo das revistas de sua abrangência pelo o número de publicações, valor este referente a um determinado período de tempo para este periódico. No entanto quando esta questão é realizada o que se visa é saber a importância e o ranqueamento de um determinado periódico científico. Assim surgiu o FI do fundador do Institute for Scientific Information (ISI) que desde 1955 anualmente edita a lista e a classificação de periódicos no Journal Citation Report (JCR), dentro do universo de revistas de sua abrangência (17,18). O FI não tem como objetivo avaliar a qualidade ou qualificação de autores (18,19). No entanto o interesse pelo fator de impacto no meio acadêmico aumentou quando da reclassificação das revistas pelo sistema Qualis da CAPES que privilegia as revistas segundo o FI (ISI, JCR, Thomson-Reuters). Na sequência a avaliação dos programas de pós- graduação e de avaliações inter-pesquisadores da academia passou a pontuar a produção científica usando estes critérios que geram críticas até os dias atuais (20,21). O FI, de dois ou três anos, é um índice bibliométrico útil e tem variação segundo o universo de revistas abrangidas, hoje com maior número no Scopus ou no Google. No nosso meio a coleção Scielo Brasil disponibiliza o FI e outros índices e agora se anuncia o novo Scielo Citation Index da parceria com a Thomson Reuters. Outro índice de avaliação para revistas é o Scimago Journal Ranking (SJR). Outros índices existem todos com sua relevância para avaliação das revistas como o índice de imeditiacidade, índice H e outros, auxiliam mas apresentam imperfeições e insatisfações (21). Neste bojo de insatisfações na avaliação do impacto científico tradicional de avaliação cientométricas, e com as mudanças comportamentais com o surgimento da internet e disponibilidade eletrônica de todas as revistas,  surge a altimetria como alternativa aos índices bibliométricos tradicionais FI e índice H. A altimetria se propõe a avaliar o impacto como citado na definição (16) em toda gama de sua repercussão na forma de artigo, dado ou informação científica citada em mídia leiga, citações na mídia impressa e eletrônica,  visualizações. downloads, menções em mídias sociais, e novas mídias,  influenciadores de mudanças de políticas governamentais em decorrência de uma publicação (2,3).

Concluindo: A revista tem o objetivo precípuo de ser a revista da hematologia/hemoterapia e Terapia celular do Brasil. Cumpre  não nos afastarmos deste objetivo após o ganho de visibilidade e da nossa presença em todas as bases de dados relevantes mundiais.

A revista não é uma revista internacional, mas tem a ambição de ser cada vez mais conhecida internacionalmente.

A revista tem fator de impacto em todas as bases e foi submetida ao ISI/JCR/Thomson Reuters, estando disponível de forma ampla eletrônicamente e inserida no mercado editorial mundial para progredir com medidas recentes de novo site e novo Publisher de importância internacional.

Cumpre aos editores serem os guardiões do progresso obtido e evitarem a elitização e o desvio dos objetivos mantidos desde o seu início.   

 

Referências bibliográficas

1. Ruiz MA, Hewitt DA, Souza CA, Chiattone CS. Os sete anos da Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. Rev Bras Hematol Hemoter. 2006; 28 (1):49-52.

2. Martins JM. Considerations on the food fortification policy in Brazil. Rev Bras Hematol Hemoter. 2011;33(2):158-63.

3. Martins JM. Universal iron fortification of foods: the vision of the hematologist. Rev Bras Hematol Hemoter. 2012;34(6):459-63.

4. Ramos EF. Hemoterapia e febre Dengue. Rev Bras  Hematol  Hemoter. 2008; 30(1):61-9.

5. Barros LP,  Igawa, SE,  Jocundo, SY, Brito Junior LC. Análise crítica dos achados hematológicos e sorológicos de pacientes com suspeita de Dengue. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2008; 30(5):363-6.

6. Azin FR, Gonçalves RP, Pitombeira MH, Lima DM, Castelo Branco I. Dengue: profile of hematological and biochemical dynamics. Rev Bras Hematol Hemoter. 2012; 34(1):36-41.

7. Ribas-Silva R, Eid AA. Dengue antibodies in blood donors. Rev Bras Hematol Hemoter. 2012;34 (3):193-5.

8. Fujimoto, DE, Koifman BS. Clinical and laboratory characteristics of patients with dengue hemorrhagic fever manifestations and their transfusion profile. Rev Bras Hematol Hemoter. 2014;36(2): in press.

9. De Santis GC, Ubiali EM, Covas DT. Compassionate use of cell products.  Rev Bras Hematol Hemoter. 2013;35(2):144-5.

10. Souza CA, Pagnano KB, Bendit I, Conchon M, Freitas CM Coelho AM, Funke VA, Bernardo WM. Chronic myeloid leukemia treatment guidelines: Brazilian Association Hematoly, Hemotherapy and Cell Therapy. Brazilian Medical Association Project. Rev Bras Hematol Hemoter 2012;34(5):367-82.

11. Hungria VT, Crusoe ET, Quero AA, Sampaio M, Maiolino A, Bernardo WM. Guidelines on the diagnosis and management of multiple myeloma treatment: Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia e Terapia Celular Project guidelines: Associação Médica Brasileira – 2012. Rev Bras Hematol Hemoter. 2013;35(3):201-17

12. Braga JÁ, Loggetto SR, Hoepers AT, Bernardo WM, Medeiros L, Veríssimo MP, Guidelines on the diagnosis of primary immunethrombocytopenia in children and adolescents: Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia celular Guidelines Project: Associação Médica Brasileira.  Rev Bras Hematol Hemoter 2013; 35(5):358-65

13. Loggetto SR, Braga JA, Veríssimo MP, Bernardo WM, Medeiros L, Hoepers AT. Guidelines on the treatment of primary immune thrombocytopenia in children and

adolescents: Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular

Guidelines Project: Associação Médica Brasileira – 2012. Rev Bras Hematol Hemoter. 2013; 35(6):417-27.

 14.Pagnano KB, Rego EM, Rohr S, Chauffaille ML, Jacomo RH, Bittencourt R, et al. Guidelines on the diagnosis and treatment for acute promyelocytic leukemia: Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular Guidelines Project: Associação Médica Brasileira – 2013. Rev Bras Hematol Hemoter. 2014; 36(1):71-92.

15. Ruiz MA. The last issue of the year, a retrospective and a new perspective for the Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia 2013; 35 (6): 376- 7   

16. de Jager M. Journal copy – editing in a non- anglophone environment 157-171 in Mataresi V. Supporting research writing, roles and challenges in multilingual settings. 2013, Chandos Publishing Hexagon House UK. 285 p.   

16. Sandes – Guimarães LV.   Gestão de Periódicos científicos: um estudo com revistas da área de administração. Dissertação de mestrado apresentada á escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas 2013; 134 p.

17. Garfield E. Citatation indexes for Science. A new dimension in documentation through association of ideas science 1955;122 (3159): 108-11

18. Ruiz MA Journal impact factor: this editorial, academic and scientific influence. Rev Bras Cir Cardiovasc 2009; 24(3): 273-78.

19. Garfield E. Journal impact factor today: a brief review CMAJ 1999; 161(8) :979-80

20. Andriolo A, Souza AF, Farias AQ, Barbosa AJ, Netto AS, Hernandez AJ et al. Classifications of journals in the Qualis system of CAPES: urgent need of changing the criteria. J Bras Nefrol 2010; 32(1):4-6

21. Barreto ML. The challenge of assessing the impact of science beyond bibliometrics. Rev Saude Publica. 2013; 47(4):834-7

*Artigo publicado primeiramente na versão em inglês na Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

Ruiz MA., Goals, globalization and impact factor of the journal. 2014; 36(2): 93

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Sobre o Autor

Médico, Hematologista, Hemoterapeuta, Professor Colaborador da disciplina de Hematologia/Hemoterapia da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo, USP-SP, Coordenador do Grupo de Estudos de Terapia celular do IMC de S J do Rio Preto-SP, Chefe da Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Infante D. Henrique da Associação Portuguesa de Beneficencia de SJ do Rio Preto SP. , Editor da Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia - Journal of Hematology and Hemotherapy ISSN 1516 8494 , Mestre em Hematologia – Escola Paulista de Medicina, Unifesp-SP, Doutor em Medicina Interna – Unicamp-SP, Livre docente em Hematologia- Famerp- SP.

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