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Medicina

Terapia celular. O que é?

A terapia celular tem sido recentemente situada como uma revolução e uma nova forma de tratamento para toda e qualquer doença principalmente para aquelas em que não existe cura ou nas quais o tratamento estabelecido apresenta resultados insuficientes ou desanimadores do ponto de vista clínico ou para a qualidade de vida destes pacientes.

No entanto a terapia celular sensu strictum, na prática não é uma forma nova de tratamento. Se remontarmos ao passado a terapia celular teve o seu inicio séculos atrás desde quando se pretendeu utilizar sangue humano ou de animais para repor perdas de volumes de sangue. Na prática isto se concretizou com a descoberta dos grupos sanguíneos, inicialmente o ABO em 1900, e posteriormente o Rh, que propiciou a seleção do sangue de doadores e determinou de forma médica e científica a reposição sanguínea, criando uma nova área de conhecimento.  As células utilizadas nesta reposição eram os glóbulos vermelhos que agora por serem compatíveis a aqueles sistemas de grupos sanguíneos passaram a ser tolerados e aceitos incrementando o número e o nível de hemoglobina com resultados sistêmicos e imediatos dos receptores dos receptores. Com esta tecnologia as cirurgias passaram a ser cada vez mais complexas e audaciosas, pois as perdas sanguíneas eram repostas de forma imediata. Assim as transfusões de sangue ou dos componentes do sangue são uma forma de terapia celular e denominamos de Terapia celular de Reposição.

A partir de 1945, quando do término da 2ª. Grande guerra, que se encerrou com as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, com seus efeitos imediatos de mortes e tardios com o aumento de cânceres e anomalias no sangue na população japonesa e a perda da exclusividade nuclear americana para os soviéticos se anteviu a inexorabilidade de uma guerra nuclear.  Isto fez com que ocorressem investimentos para se conhecer mais sobre o sangue, seus elementos, e estudos de como se protegeria a população dos efeitos da irradiação redundantes de uma explosão nuclear. Este temor fez com que se progredisse evoluindo todos estes conhecimentos para o Transplante de Medula Óssea, forma de tratamento para falências medulares e da Anemia aplástica que pode ser causada por radiações como ocorreu em um sobrevivente de um acidente e tratado por células retiradas de medula óssea de um doador.   Logo esta forma de terapia evoluiu e no inicio da década de 70, a reconstituição do tecido hematopoético, afetado por doenças graves como a Leucemia passou a utilizar este raciocínio de tratamento com destruição do tecido anômalo e reconstituição com células de medula óssea de doadores. Assim o Transplante de medula óssea, hoje denominado como Transplante de Células tronco Hematopoéticas é uma forma de Terapia celular de Reconstituição.  A fonte de células para esta modalidade de terapia pode ser além da medula óssea, o sangue periférico e sangue de cordão umbilical. As modalidades podem ser alogênica quando existe um doador e autóloga ou autogênica, quando o doador é próprio paciente.

No final da década de 90, o determinismo que predominava nos conhecimentos sobre a biologia celular, foi transposto, órgãos em que se acreditava que não possuíam células tronco ou células passíveis de regenerar tecidos lesados ou envelhecidos forma descritos, e os estudos com células tronco embrionárias fizeram com que in vidro, fosse desenvovlda várias linhagens de células e in vivo fosse observado resultados surpreendentes de regeneração em várias doenças crônicas. Resultados experimentais em infarto do miocárdio demonstraram que o uso de células tronco de origem medular na área lesada minimizava os efeitos de remodelamento ventricular, ou seja, a terapia previne o desenvolvimento da insuficiência cardíaca. Em 2002 tal assertiva foi confirmada em estudos clínicos e nos últimos cinco anos vários estudos ocorreram e outros inclusive no Brasil estão sendo desenvolvidos com o objetivo na área de doenças cardíacas e de muitas outras áreas. Esta forma de tratamento é a que denominamos de Terapia celular de Regeneração.  Esta forma de terapia se propõem a utilizar células de várias fontes e tecidos com a finalidade de mudar o ciclo de vida e morte tecidual e neste bojo descobertas e polêmicas em relação à origem (embrionária), que a célula- tronco se popularizou e ganhou a mídia e hoje é uma das maiores linhas de pesquisa em todo o mundo pela perspectiva de uma nova forma de tratamento e de medicina para futuro.

Milton Artur Ruiz

Sobre o Autor

Médico, Hematologista, Hemoterapeuta, Professor Colaborador da disciplina de Hematologia/Hemoterapia da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo, USP-SP, Coordenador do Grupo de Estudos de Terapia celular do IMC de S J do Rio Preto-SP, Chefe da Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Infante D. Henrique da Associação Portuguesa de Beneficencia de SJ do Rio Preto SP. , Editor da Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia - Journal of Hematology and Hemotherapy ISSN 1516 8494 , Mestre em Hematologia – Escola Paulista de Medicina, Unifesp-SP, Doutor em Medicina Interna – Unicamp-SP, Livre docente em Hematologia- Famerp- SP.

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